23 dezembro 2006

Jan Saudek
Cor-de-tez-rosa
Dor-terrosa-tem
cor-tez-ão
sem todos os homens da praça
co-tesão nem.

22 dezembro 2006

Verde plural e tu com esse delineador
Contorce os batons cáqui e cáqui
espalha uma matiz derretida
Melhor para a colher ou para a goela
Aguar e Go!
Deixa te molhar dessa pressa
Empurrar líquidos para o meio
Subir e volátil para baixo.

14 dezembro 2006

Jan Saudek



Judith nunca soube dançar. As sandálias se atrapalhavam toda vez que arriscava um passe, subiam e cruzavam no mesmo quadro ao chão. Os riscos em ziguezague no assoalho estavam desenhando galerias para insetos, especialmente agora, em época de chuva, que as formigas resolvem voar. Se bem que o que se pode enxergar quando amanhece é tão somente as asas abandonadas no rejunte, entupindo o piso de suicídio.
Depois do almoço, quando a mãe leva os pratos a pia, aproveita os grãos de arroz caídos no corredor para pisá-los. Ah, sapatos servem pra isso. Descobriu inclusive que esmagá-los sob as meias, é bem mais divertido, tudo porque o barulho, algo parecido com gaum, também dá pra sentir nos dedos.
Sorria descontroladamente ao ver a porcelana tão desbotada dos bibelôs da estante. Eram meninas de vestidinhos recortados dum pano verde e carecas.
- Como isso pode enfeitar uma sala de estar?
Judith economizava tardes imaginando como envelheciam mais rápido que suas camisolas, ainda que sobrasse tempo pra descansar na prateleira.
Quando calava e ouvia música, esquecia que elas também não dançavam, embora suspeitasse que chorassem. As barrigas estavam cheias d’água, por isso ficavam cada vez mais gordas.
- Vou chacoalhá-las, estúpidas. Coloquem essas lágrimas pra fora!
De fraqueza mórbida, atirou-se no tango, espatifando as bonequinhas de louça na vitrola, enquanto girava à beira da janela engolindo mosquitos.

13 dezembro 2006

Jan Saudek

"Esse obscuro objeto de desejo"

Não vi quantas gotas caíram no copo
nem quantas escaparam pela garrafa
tive medo de afogar o rio amarelo
hepático,patético,patê de lêvedo
pensei ter visto o bandoleiro
arrastar pra contramão a namorada
(...)
simpático,simplório,sexo sintético.
AEROMUSIC

Nimbus
Cabrum'n bass.

12 dezembro 2006

[In Memorian]

Joacy Jamys foi desenhista,quadrinista,cartunista e chargista maranhense.
http://www.joacyjamys.com.br/

Valeu,cara!

11 dezembro 2006

Jan Saudek



Espartilhos a esse corpinho curvo, medidas reduzidas também, por favor. Não quero nenhum excesso de carne fosca, aliás, pretendo coabitar com teus despudores, teus vírus e teus lapsos de violência.
Um sacrifício ser alvo das masturbações. Pastilhas de eucalipto na bolsa, tá?
(O táxi listrado já se debate nas poças de água barrenta, deve estar inconformado com a demora desse vestido).
Pedi um copo d’água com açúcar,não um refrigerante cor-de-rosa,mas tento economizar tempo e acabo logo com isso,vou direto ao carro.
Antes que eu me esqueça, confiro quantas ruas têm depois de um bar com letreiros néon (lá tem uma bilhar de tecido esquisito, parece estopa. Mas quem trocaria um verde aveludado por uns metros de asperezas? Sem falar na dificuldade das bolas se deslocarem), não posso me perder nesses lugares que exalam gás de geladeira. É melhor ficar pronta com os lenços e evitar um desmaio no banco de trás.
Chego aos portões consertando o penteado. É uma casa linda daqui do lado de fora!
Atravessando o hall, umas poltronas de couro legítimo são os destaques desse espanto. Aranhas!Aranhas ali!Olha a fúria das patas!Por Deus, tire-as de lá! E alguém de notável bondade consegue expulsá-las oferecendo sobremesas frias.
Assim, sento e espero o anfitrião roçando as rendas e metendo a mão entre as pernas, recomposta do susto. Do topo da escada, vem um cão louro, de orelhas grandes e felpudas, trazendo na boca um disco preto.
Ah, vamos ouvir essa música no salão, criança (li o movimento pra lá e pra cá do rabo).
Toma, isto é seu. E apontou o canto direito.
Dois casais magros e nus dividiam o quarto, o banheiro e carpetes, contendo o riso. Pergunto sobre a música que arranha o ouvido e não respondem amistosamente, em vez disso, aproximam de mim o espelho à frente.
Aquele aperto nos braços sou eu quem provoca. As mordidas no rosto e panturrilhas também, estão as marcas dos meus dentes lá. Mas não me movo, continuo esfregando os seios e púbis contra a superfície gelada daquele vidro, enquanto eles se encontram junto aos travesseiros e o som cresce com os metais.
Já sinto fome. Desde ontem, me esfolo a pele nessa transa como se estivesse sobre aquela estopa.

09 dezembro 2006

Jan Saudek



Ergui um pé repetido. Nada naqueles dedões eram comestíveis, nem me convencia a parti-los em dois. Isso não me vinha à cabeça. Talvez o matasse. Assim, quem sabe, me sossegasse o estômago. Mas grunhia alto, como se não se conformasse parecer estar entre o bom e o mau, e quando um movimento inaudível daquelas unhas roídas escapulia nos intervalos de gritaria, eu beliscava o peito. Depois das tentativas de resgatar a cor, escapando da palidez, só restava um estojo de maquiagem. Espalhei pó (lembrava um grande caramelo), além de escovar os pêlos.

Para esse instante, um parêntese abraça reticências.

Via, com os ombros tortos,que ele me reprovava,esticando o esmalte até desprender do cinza. Espirrava dos cantos e das cutículas qualquer coisa com aspecto de poliéster, com cheiro de urina, enquanto um algodão encharcado de lavanda era torcido por cima do blush. Por vinte minutos inertes, recuperei a espuma e espremi na minha boca o resto do marrom, enfiando junto o metatarso. Nenhum incômodo agora com pés. Só mesmo o gosto repugnante de poliéster.